Entender, querer, fazer

José Serra

O senador José SerraA dois meses da eleição em que vamos definir a estrutura do poder político para os próximos quatro anos -presidente da República, 27 governadores, 54 senadores, 513 deputados federais e 1.059 deputados estaduais-, o país faz um novo acordo internacional e respira aliviado de uma crise que afetava todos nós, embora, seguramente, mais de 90% dos brasileiros não tenham conseguido entender por quê. Dólar supervalorizado, risco Brasil em alta, Bolsa em queda; isso nada significa para os brasileiros que mal conseguem sobreviver, a mãe pobre chefe de família, o desempregado, enfim, todos que nunca tiveram na mão uma ação, um c-bond nem mesmo uma nota de US$ 1. Esse é o encanto quase sagrado da democracia. No dia 6 de outubro, os 115 milhões de eleitores, conhecedores ou não dos verdadeiros ou falsos mistérios e dilemas da economia, tenham ou não uma nota de US$ 1 na mão, serão absolutamente iguais durante os dois ou três minutos em que estiverem escolhendo os novos senhores do poder político. A vontade da maioria é que determinará se e por quanto tempo o Brasil ainda vai espirrar quando algum outro país tiver uma gripe, se e quando terá de negociar acordos com o FMI para evitar crises, reais ou artificiais, internas ou importadas. O entendimento com o Fundo foi muito bom para o Brasil. Mas, é claro, seria melhor ainda se ele não tivesse se tornado indispensável. Muitos brasileiros, inclusive eu e mais dois candidatos presidenciáveis, entendem isso: como chegamos a precisar do FMI e como foi essencial fazer este novo (e bom) acordo. Mas não basta entender. Uma pequena parte dos brasileiros, que conhece os mecanismos da economia, defende-se bem ou aumenta suas fortunas e seu poder com a sucessão de crises. Foi sempre assim em nossos cinco séculos de história. Tem gente que sabe, conhece o que ocorre, mas mora no andar de cima, como diz o jornalista Elio Gaspari. Já o andar de baixo fica desprotegido e, quanto mais não seja, é preciso evitar essas crises para que as coisas não desabem sobre ele.

Outra pequena parte dos brasileiros tem saudade dos velhos tempos da ditadura e a especialidade de bloquear mudanças, buscando se perpetuar e manter o atraso, é sua principal fonte de poder. Aqueles dois ou três minutos em que cada cidadão do andar de baixo estará na cabine de votação podem romper o bloqueio. Por isso, essa gente perturba o processo eleitoral, inventa candidaturas e acusações, espalha boatos, forja dossiês e as mais esdrúxulas alianças. A embalagem é nova, um embrulho para presente, o trio elétrico toca músicas modernas e as fantasias são bem coloridas. Só o beija-mão revela como tudo deve ser diferente, desde que tudo continue como está. Por isso, não basta entender. É preciso querer. Como seria possível mudar o Brasil que temos? Como ir além da estabilidade duramente conquistada e preservada pelo governo Fernando Henrique, uma vitória importante para os excluídos sociais, porque eliminou a inflação corrosiva dos baixos salários, tornou o real tão valioso no primeiro dia do mês como no último? Como ir adiante no aprofundamento de políticas sociais na educação, na saúde e na proteção social de forma inovadora e abrangente? Com essa pergunta, mobilizamos mais de cem das melhores cabeças do país em todas as áreas, para prepararmos juntos um programa de governo. Os brasileiros que querem mudar o Brasil -inclusive eu e mais um candidato presidencial- já o conhecem ou poderão conhecê-lo, através de jornais, revistas e do site www.joseserra.org.br. Mesmo entendendo e querendo, para fazer é preciso ter experiência e determinação. Tenho 40 anos de vida pública, de presidente da União Nacional dos Estudantes a senador da República, com passagens pela Secretaria de Planejamento de São Paulo, Assembléia Nacional Constituinte, Câmara dos Deputados, Ministério do Planejamento e Ministério da Saúde. Nunca fui acusado do menor deslize com o dinheiro público. Ninguém contestou minha dedicação nas funções que exerci, nem a minha solidariedade com as aspirações e os interesses do andar de baixo, da maioria dos brasileiros. Entendo, quero e sei como fazer para construir um futuro em que o Brasil não precise mais fazer acordos, mesmo bem feitos, com o Fundo Monetário Internacional, mantenha a estabilidade econômica e, através de mudanças pacíficas e inteligentes no rumo da justiça social, ofereça melhores oportunidades a todos os seus filhos e reduza a desigualdade. Sou o único candidato presidencial cujo programa de governo garante que as mudanças cheguem a todos e a cada um. Pense nisso, leitor eleitor, durante aqueles dois ou três minutos em que você e mais 115 milhões serão donos do Brasil.