O cinema perde Alberto Lattuada

Carlos Augusto Brandão para a Italiamiga

O cinema italiano , que proporcionou ao mundo alguns dos momentos mais mágicos nas telas do mundo, foi desfalcado de mais um nome expressivo de sua cinematografia: o cineasta Alberto Lattuada morreu ontem aos 91 anos de idade em sua residência, nas imediações de Roma. Filho do compositor Felice Lattuada (1882-1962) , Alberto nasceu em 13 de novembro de 1914 em Milão e desde jovem, manifestou um grande interesse pela literatura, o que o levou a escrever muitos artigos sobre cinema e a fundar uma publicação – Camminare – juntamente com seu companheiro de colégio Alberto Mondadori. Lattuada foi um dos nomes do neo-realismo, atuando no chamado Grupo de Milão, onde militavam, além dele Luigi Comencini , Dino Risi e outros mais. Dessa fase, seu filme mais conhecido é Sem Piedade (Senza Pietà) realizado em 1947, com Carla Del Poggio e Giullieta Masina. Após formar-se em arquitetura na Escola Politécnica de Milão – onde conheceu outros arquitetos que se voltaram para o cinema como Renato Castellani e o próprio Comencini – Lattuada começou no cinema como decorador de sets em 1933. Em 1940 participou do roteiro do filme Piccolo Mondo Antico, de Mario Soldati, que foi premiado no Festival de Veneza. Seu primeiro longa data de 1942 – Giacomo L’ Idealista, com Massimo Serato e Marina Berti. Começou a ser notado e a fazer sucesso com O Bandido (Il Bandito), de 46, com Anna Magnani e Amedeo Nazzari, seguido de O Delito (Il Delitto di Giovanni Episcopo), estrelado por Aldo Fabrizi e Ivonne Sanson. Em 1950 participou da estréia do grande Federico Fellini no cinema, co-dirigindo com ele Mulheres e Luzes, protagonizado por Giullieta Masina e, trazendo num pequeno papel, a brasileira Vanja Orico, que viria a brilhar em Cannes em 1953 com O Cangaceiro, de Lima Barreto. Outra brasileira a trabalhar com Lattuada foi Norma Benguell em o Mafioso (Mafioso), de 1965, contracenando com Alberto Sordi, o Albertone, como os italianos carinhosamente chamavam o comediante. A cinematografia de Lattuada é extremamente diversificada, pois sua carreira abrangeu quase todos os grandes gêneros que fizeram do cinema italiano um dos melhores do mundo. Nas comédias à italiana, um dos marcos desse cinema – onde pontificaram cineastas como Monicelli, Germi, De Sica e comediantes consagrados como Totò, Sordi, Manfredi, Gassman e tantos outros – Lattuada nos brindou com Venha Tomar Café Conosco (Venga a Prendere il Caffè da Noi), 1970 , estrelado pelo inesquecível Ugo Tognazzi. Lattuada também realizou adaptações literárias para o cinema, casos de A Mandrágora (La Mandragola), 1965, baseado numa obra de Maquiavel, e de Tempestade de Aleksandr Puchkin. Tempestade, de 1958, tem no elenco Geoffrey Horne e Silvana Mangano, outro mito gigantesco do cinema italiano. O erotismo igualmente foi uma constante no seu cinema em filmes como Tentação Proibida (Così Come Sei) – sobre relações incestuosas, com Marcello Mastroianni e Nastassia Kinski – e La Cicala sobre a rivalidade entre mãe e filha, que disputavam o mesmo homem e que chegou a ser proibido na Itália. Em sua extensa filmografia destacam-se ainda Passado que Condena, de 54 (La Spiaggia), com Martine Carol e Raf Vallone; A Noviça Proibida (Lettere di Uma Novizia), 60, com Jean-Paul Belmondo e Pascale Petit; O Pecado (Bianco Rosso e...), estrelado por Sophia Loren; e em 1985, a produção para tevê Cristóvão Colombo (Cristoforo Colombo), com Gabriel Byrne e Virna Lisi.

Lattuada também teve um papel importante na preservação fílmica , envolvendo-se juntamente com Comencini na conservação do Arquivo do Cinema italiano e tendo presidido durante muitos anos a Cinemateca Italiana. O cineasta esteve em 1975 no Brasil em Porto Alegre, a convite da Comissão Executiva para as Comemorações do Centenário da Colonização Italiana. Tinha na época 61 anos, 33 de cinema e já tinha realizado 30 longas-metragens. Na cidade gaúcha fez uma conferência intitulada Vitalidade do Cinema Italiano e abriu uma retrospectiva de seus filmes da qual constavam, entre outros – O Bandido, O Moinho de Pó, Sem Piedade e Venha Tomar um Café Conosco. É duro lembrar, mas aos poucos eles vão indo embora: Zavatini, Fellini, Masina, Mastroianni, Gassmann, Sordi, Tognazzi, Fabrizi, Mangano, De Sica, Volonté, Leone, Visconti, Magnani, Cervi, Manfredi, Rota, a lista é cada vez maior. Duro também é constatar que a lista dos que ainda estão por aqui – e criaram alguns dos momentos mais importantes da cinematografia mundial – está ficando cada vez menor.